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Macrotendências em Educação Ambiental

Gustavo Lima

AS MACROTENDÊNCIAS POLÍTICO-PEDAGÓGICAS DA

EDUCAÇÃO AMBIENTAL BRASILEIRA

PHILIPPE POMIER LAYRARGUES1

, GUSTAVO FERREIRA DA COSTA LIMA2

Introdução

A Ecologia Política trouxe no final dos anos 1970 a contribuição das ciências

humanas e sociais para o debate ecológico, até então pautados por uma abordagem com

viés biológico e despolitizado dos problemas ambientais, que excluía da análise os aspectos

políticos e sociais. Incorporou no debate aqueles elementos que os olhares disciplinares

omitiam, como os modelos de desenvolvimento, os conflitos de classe, os padrões culturais

e ideológicos, as injunções políticas dominantes na sociedade, as relações entre estado,

sociedade e mercado.

a noção de Campo Social definida por Bourdieu (2001, 2004), pressupõe um

espaço plural de agentes sociais e de posições conceituais e políticas que disputam a

definição das regras de funcionamento, cultura e valores reconhecidos pelos integrantes

de um determinado universo social que ele denomina de “campo”. Compreende, resu-

midamente, um conjunto de relações de dominação, subordinação e adesão associado

a estratégias ideológicas de conservação ou de subversão da ordem estabelecida dentro

deste espaço social.

Segundo Bourdieu (2001, 2004) um Campo Social é um espaço relativamente

autônomo de forças e posições sociais, dotado de regras próprias e dedicado à produção

e reprodução de bens culturais, representações e formas de perceber a realidade. Reúne

um conjunto de indivíduos e instituições que estabelecem entre si relações de poder e

concorrência pela hegemonia simbólica e material desse universo, fundada na conquista

e domínio do capital simbólico legitimado e reconhecido por todos os que dele partici-

pam. Por ser um espaço concorrencial, o campo pressupõe relações internas assimétricas

derivadas da desigual distribuição de poder entre os grupos dominantes e dominados. Os

1 Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas UNICAMP, Professor da Faculdade UnB

Planaltina e membro do Laboratório de Investigações em Educação, Ambiente e Sociedade da Faculdade de Educação da

UFRJ.E-mail: [email protected]

2 Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas UNICAMP, Professor e pesquisador do

Departamento de Ciências Sociais - DCS e do Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio

Ambiente PRODEMA, ambos da Universidade Federal da Paraíba UFPB. E-mail: [email protected]

Ambiente & Sociedade n São Paulo v. XVII, n. 1 n p. 23-40 n jan.-mar. 2014

24 Layrargues e Lima

dominantes são os que definem o capital social legítimo do campo objeto de disputa

entre seus participantes e, portanto, as regras do jogo. Tendem à ortodoxia e desenvol-

vem estratégias de conservação; enquanto os dominados tendem à heterodoxia e ao uso

de estratégias de subversão da ordem (BOURDIEU, 2001, 2004; LOUREIRO, 1995).

A noção de Campo Social permite vislumbrar as normas, os valores, os interesses,

os sistemas simbólicos e objetivos que orientam um espaço social, além, evidentemente,

dos conflitos que dão a medida de sua diversidade interna e da dinâmica das forças sociais

que o movimenta (BONNEWITZ, 2003).

Compreender a diferenciação interna de um Campo Social particular responde, ao

menos, a dois objetivos: um de ordem analítica e outro de ordem política. Analiticamente,

trata-se de discriminar, classificar e interpretar fenômenos ou processos que são diferentes

entre si, mas devido a certas semelhanças ou elementos comuns tendem a ser confundi-

dos como uma totalidade homogênea o que é algo recorrente na Educação Ambiental.

Assim, a diferenciação pode produzir um conhecimento mais fiel à realidade do objeto

ou processo observado. Além disso, a tarefa analítica contribui para o aprofundamento

da autorreflexividade do campo da Educação Ambiental.

O objetivo de natureza política se realiza quando a decomposição analítica daquilo

que parecia ser um todo homogêneo permite perceber as diferenças internas e identificar

as motivações, os interesses e os valores que inspiraram sua constituição diversa, no caso,

as tendências político-pedagógicas da Educação Ambiental. A diferenciação oferece uma

visão cartográfica do campo, recompõe sua complexidade e faculta aos agentes envolvidos a

possibilidade de refinar o olhar e, por consequência, de se posicionar com maior autonomia

nesse espaço social, escolhendo os caminhos pedagógicos, éticos e políticos que melhor

atendam a seus interesses.

Ressalte-se que um debate, ainda implícito, que polariza duas interpretações

diferentes a respeito da explicitação das correntes político-pedagógicas na Educação

Ambiental: a primeira julga que os riscos da análise são maiores que os ganhos, porque

entende que as tipologias simplificam a realidade, perdem de vista seu dinamismo e in-

duzem a um estranhamento entre os atores sociais que compartilham o campo.

A segunda julga que os benefícios da análise superam esse risco: não se trataria

aqui de um esforço gratuito de abstração, mas de uma interpretação da realidade que

traz resultados positivos. A esse respeito, Bertolucci et al. (2005), constatando a domi-

nância da percepção da Educação Ambiental como uma prática educativa homogênea,

concordam com a necessidade de se repensar o campo, o que implicaria em ganhos de

amadurecimento teórico e epistemológico não apenas do campo, mas também de cada

vertente político-pedagógica. A necessidade de compreender as singularidades do campo

parece ser um caminho sem volta.

Articulando esses elementos, propomos uma interpretação diferenciadora do

campo da Educação Ambiental no Brasil, ainda que cientes dos riscos implícitos em

todo esforço de classificação de realidades inerentemente complexas como é o caso da

Educação Ambiental.

Ambiente & Sociedade n São Paulo v. XVII, n. 1 n p. 23-40 n jan.-mar. 2014

As macrotendências político-pedagógicas da educação ambiental brasileira 25

A Educação Ambiental como um Campo Social

Consideramos, nessa reflexão, que a Educação Ambiental pode ser entendida,

simultaneamente, como um subcampo derivado do campo ambientalista e também como

um campo relativamente autônomo. Isso porque historicamente a Educação Ambiental

retirou do campo ambientalista os elementos simbólicos e institucionais mais significa-

tivos de sua identidade e formação. Por outro lado, ao analisarmos sua relação com o

campo educacional, seus propósitos, cultura, saberes, espaços escolarizados e práticas,

constataremos que a Educação Ambiental tem particularidades próprias que lhe atribuem

um ethos específico, relativamente diferenciado do campo ambientalista (LIMA, 2011;

CARVALHO, 2001; CRESPO, 1998).

Observando a Educação Ambiental a partir da noção deCampo Social pode-se dizer

que ela é composta por uma diversidade de atores e instituições sociais que compartilham

um núcleo de valores e normas comuns. Contudo, tais atores também se diferenciam em

suas concepções sobre a questão ambiental e nas propostas políticas, pedagógicas e epis-

temológicas que defendem para abordar os problemas ambientais. Esses diferentes grupos

sociais disputam a hegemonia do campo e a possibilidade de orientá-lo de acordo com sua

interpretação da realidade e seus interesses que oscilam entre tendências à conservação

ou à transformação das relações sociais e das relações que a sociedade mantém com o

seu ambiente. Ressalte-se que as tendências à conservação ou à transformação social

referidas acima, expressam a representação de uma multiplicidade de posições ao longo

de um eixo imaginário polarizado pelas duas tendências, nunca um esquema binário e

maniqueísta, que reduziria a análise.

Assim, a noção de Campo Social agrega à análise da Educação Ambiental as ideias

de pluralidade, diversidade e de disputa pela definição legítima deste universo e pelo

direito de orientar os rumos de sua práxis. Agrega também a percepção do movimento e

da coexistência entre tendências que disputam a dinâmica da hegemonia deste campo.

Por esta perspectiva podemos explorar a posição dos grupos que compõem o campo, as

relações que mantêm entre si, assim como as tendências à reprodução e à transformação

da ordem. A análise dessa dinâmica representa o substrato do qual emergem as macro-

tendências político-pedagógicas analisadas.

A Educação Ambiental no Brasil ilustra esse processo na medida em que aparece

ao grande público não especializado, como se fora um objeto único, apesar de se constituir

como um campo de saber e de práticas internamente diversificado. Ao homogeneizá-lo,

reduz-se a variedade de características pedagógicas, políticas, éticas e epistemológicas

que definem as concepções e práticas de Educação Ambiental. Por outro lado, para os

educadores ambientais próximos ao núcleo orientador do campoi

ou pertencentes às pri-

meiras gerações dessa área profissional, o campo da Educação Ambiental é atualmente

reconhecido como multifacetado, composto por inúmeras

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